A combinação de gestos com as mãos e partes do corpo como uma forma não verbal de comunicação e saudação foi criado por soldados negros durante a Guerra do Vietnã, Em uma Prisão Militar apelidada de Long Bình Jail localizada na Província de Đồng Nai, no Sul do Vietnã. + de 95% dos prisioneiros naquela prisão eram afro-americanos. O aperto de mão conhecido como “dap” foi criado aqui.
A Guerra do Vietnã foi um conflito militar que durou de 1955 a 1976 no qual os Viet Congs ao Norte do Vietnã, apoiado pela União Soviética, China e outros aliados, pegaram em armas para lutar pela unificação do país sob um governo socialista. Do outro lado, o Vietnã do Sul recebeu apoio dos Estados Unidos, Coreia do Sul, Austrália, Tailândia e outras nações anticomunistas ao redor do mundo. Nessa ocasião, os Estados Unidos enviou mais de 300 mil afro-americanos para o campo de batalha e apesar dos “reforços” a missão política e militar dos norte-americanos foi um fracasso, interpretada como a guerra mais controversa envolvendo aquela nação, para alguns, a guerra no Vietnã foi um crime, uma tentativa dos Estados Unidos de interromper um heroico movimento de libertação nacional vietnamita que havia expulsado o colonialismo francês do país. Para outros um erro trágico cometido por líderes norte-americanos que exageraram a influência do socialismo e subestimaram o poder do nacionalismo.
O Vietnã do Norte e o Vietnã do Sul foram unificados sob uma única bandeira Socialista em julho de 1976…
Circulavam relatos sobre soldados negros supostamente baleados pelas costas por companheiros brancos durante combates em território vietnamita. Diante desse cenário no campo de batalha e as tensões raciais fora dele o DAP se desenvolveu como uma forma de solidariedade e resistência, simbolizando união e força, garantindo que os afro-americanos nunca mais se sentissem sozinhos ou traídos no campo de batalha.
Diante de todas as tenções daquele período, cada vez mais afro-americanos passaram a se identificar com o movimento Black Power especialmente após Malcolm X ser executado em fevereiro de 1965 e Stokely Carmichael (Kwame Ture) adotar o movimento publicamente um ano depois em 66′. O movimento influenciava o fortalecimento das comunidades negras, incluindo direitos civis, autonomia política, consciência racial dentro e fora das forças armadas, autodefesa e rejeição ao racismo estrutural nos EUA. A principal oposição da população veio por parte dos estudantes e rapidamente se espalhou por todas as principais cidades e universidades dos EUA em 1968. A crítica ate aqui não era à guerra em si, mas à desigualdade racial -na praxe-, expressa na maior proporção de baixas entre combatentes negros comparada a outras nações envolvidas no conflito e na atribuição de missões mais perigosas a eles, que muitas vezes resultavam em tragédias.
Muitos afro-americanos serviam movidos pelas mesmas razões que levaram seus pais e avós a lutar em conflitos anteriores. patriotismo, esperança de reconhecimento e busca por cidadania plena. No entanto, desencorajados pela falta de promoções e condecorações durante os treinamentos quanto no campo de batalha, começaram a questionar por que deveriam lutar por um país que continuava a brutalizar aqueles que, como eles, apenas buscavam defender seus direitos civis. Para muitos jovens negros, o serviço militar também era visto como uma oportunidade vocacional e uma forma de independência financeira, além de representar a possibilidade de provar seu valor, afirmar seu patriotismo e fortalecer a luta pelos direitos civis. Na noite de 4 de abril de 1968 o pastor batista e figura mais proeminente do movimento negro dos EUA, Martin Luther King foi também eliminado em um motel em Memphis.
DIGNIDADE E ORGULHO.
O DAP consiste em uma sequência de “apertos de mão” realizados em movimentos verticais ou horizontais, combinados com tapas, toques de mão e punho, estalos de dedos e até o contato do punho com o peito, podendo ser adaptado para versões secretas ou personalizadas. Mais do que gestos de identificação ou resistência, essa forma de comunicação estava enraizada na necessidade de expressar solidariedade e sobrevivência de forma não verbal entre os soldados negros durante a Guerra do Vietnã. Mais uma expressão da cultura e consciência negra, um compromisso de cuidar uns dos outros também no campo de batalha.
Como uma forma de celebrar a vida, superar desafios e conectar profundamente com o outro, o DAP como ficou conhecido; é uma maneira bonita de fazer história.
Outro símbolo presente na década foi a saudação Black Power, um punho cerrado erguido bem alto, vestindo luvas de couro preto, imortalizado pelos atletas medalhistas Tommy Smith e John Carlos durante a cerimônia de premiação nas Olimpíadas de 1968, na Cidade do México. Esse movimento desencadeou uma revolução epistemológica na forma como os afro-americanos passaram a se comunicar dentro e fora do campo de batalha. O gesto foi uma declaração desafiadora contra a opressão sistêmica sofrida pelos negros nos Estados Unidos e marcou um momento decisivo na história do movimento pelos Direitos Civis. As autoridades e os serviços de inteligência do EUA, interpretaram o ato como uma ameaça política, e o uso de saudações publicas entre pessoas negras passaram a ser criminalizada. Da mesma forma o DAP que significavam “Dignidade E Orgulho” (Dignity And Pride) também foram anexado ao Movimento Black Power, considerados subversivos foram acusado de ser uma organizações criminosas e terrorista. Muitos soldados afro-americanos foram levados à corte, presos e até dispensados desonrosamente como punição por realizarem os DAPPINGS.
A censura apenas solidificou a necessidade de haver unidade entre afro-americanos.
” Eu vejo você, eu respeito você, eu apoio você “.
A popularização do DAP ganhou força no início da década de 1970, embora valha lembrar que alguns boxeadores já batiam as luvas muito antes como um gesto de solidariedade antes das lutas. Mas foi diferente quando um jogador de basquete chamado Fred Carter levou o gesto para outro nível. Atuando em Baltimore pelo Bullets, Carter; um atleta exuberante, defensor de estilo agressivo, conhecido como “Mad Dog” passou a celebrava cada pontuação e conquista do time com toques de punho e peito junto a seus companheiros de equipe, que incluíam atletas de diversas origens e nacionalidades. Sob essa energia contagiante os Bullets chegaram às finais da NBA em 1971. Embora Fred Carter não tenha sido o inventor da ideia de bater o punho ou tocar os dedos com um colega, ele foi o primeiro a popularizar o gesto nas quadras, influenciando lentamente o esporte, a cultura urbana e o comportamento daquela época…

Acompanhando o Movimento Black Power ao longo das décadas de 1960 e 1970, os toques de mão se infiltraram rapidamente na cultura popular e simplesmente invadiram tudo. Dos vestiários da NBA em Baltimore aos campos de beisebol, dos playgrounds no Brooklyn aos estúdios de gravação em Los Angeles. O DAP não pediu licença, aconteceu! jovens e adultos, trabalhadores, artistas, atletas, universitários, intelectuais, cada um adotou com naturalidade o gesto, cruzando fronteiras culturais e geográficas como um hit que ninguém conseguia parar de ouvir.
… Mais tarde, apesar da supressão pelo governo dos Estados Unidos o Dapping foi incorporado como uma técnica terapêutica em programas de reabilitação para veteranos de guerra com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), voluntários e profissionais de saúde mental convidavam soldados afro-americanos fluente em DAP para interagir com os pacientes, buscando estabelecer vínculos de confiança para facilitar o acesso ao tratamento, especialmente em clínicas onde predominavam médicos brancos.
É possível perceber essa relação no filme “DA 5 BLOOD” dirigido por Spike Lee (Netflix)
O Presidente Barack Obama integrou o DAP em toda sua campanha eleitoral à partir de 2009, atualmente é ignorante mal-interpretar ou criminalizar bater os punhos, o peito e tocar os dedos.
Em 2013, o fotógrafo norte americano LaMont Hamilton criou Five on the Black Hand Side: e Dapline uma série de imagens que explora a origem e evolução dos Dappings e examina o papel das práticas gestuais negras, históricas e contemporâneas, como formas de resistência diante da opressão sistêmica.

A dificuldade em encontrar referências e documentos sobre a comunicação, saudações ou expressões da consciência negra em períodos anteriores, como a escravidão ou a era Jim Crow, faz com que essa forma de interação pareça ter surgido apenas mais tarde e posteriormente, se espalhado com a popularização da cultura pop e do hip-hop nas décadas de 1980 e 1990.
Historiadores acreditam que o cumprimento e a saudação como toque de mãos esta enraizada na cultura africana mais precisamente na Africa Ocidental do século XVIII. Comerciantes europeus, acostumados a apertos de mão mais formais, ficavam intrigados e, por vezes, perplexos com as elaboradas saudações dos membros de comunidades africanas na região, principalmente com a habilidade de estalar os dedos após o aperto de mãos. De acordo com Tyler D. Parry, professor assistente de Estudos Afro-Americanos e da Diáspora Africana na Universidade de Nevada, Las Vegas, a etimologia do DAP não é totalmente clara, no entanto, acredita-se que ele possa fazer referência à palavra vietnamita “Đẹp”, que significa algo como “belo” ou “bonito”. Com o tempo, o DAP passou a ser interpretado como um retro-acrônimo para a expressão em inglês “Dignity And Pride” (Dignidade e Orgulho).
Ao longo das décadas muitas das expressões da consciência negra foram transformadas. E o os toques de mão “Dap” não é uma excessão. Atualmente no esporte, entretenimento e nas redes sociais os DAPPINGS são utilizados pelo público em geral, especialmente nas periferias sendo adotado por diferentes gerações e origens.



































































